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MUSICOTERAPIA

Recentemente em um dos meus locais de trabalho, um chefe intermediário resolveu proibir os empregados de ouvir música sob a justificativa que tal prática atrapalha (!) a produtividade. Resolvi pesquisar o assunto para provar que dependendo da música que se escuta, o efeito é justamente o oposto. Leia o texto abaixo, colhido no site da BBC e tire suas próprias conclusões...

Cirurgião pianista estuda efeito da música na cura
David Dobbs
Para Claudius Conrad, 30, música e medicina estão interligadas. Ele é cirurgião e toca piano seriamente desde os cinco anos de idade, e as duas coisas estão unidas, do plano acadêmico à destreza manual requerida tanto no comando do instrumento quanto diante de uma mesa de cirurgia. "Caso eu passe mais de dois dias sem tocar", diz Conrad, que está no terceiro ano do programa de residência cirúrgica da Escola de Medicina de Harvard e é doutor em biologia celular e em filosofia da música, "não consigo sentir as coisas tão bem na cirurgia. Minhas mãos são menos suaves no contato com os tecidos; são menos sensíveis ao retorno sensorial que os tecidos do corpo oferecem".
Como muitos cirurgiões, Conrad diz que trabalha melhor ouvindo música. E menciona estudos, alguns dos quais conduzidos por ele mesmo, segundo os quais a música também beneficia os pacientes: gera relaxamento e reduz a pressão sangüínea, o batimento cardíaco, os hormônios de estresse, a dor e a necessidade de medicamentos analgésicos.
Mas, se a música tem mesmo um efeito de cura, de que maneira este se manifesta? Os percursos fisiológicos responsáveis continuam obscuros, e a busca por um mecanismo subjacente vem avançando com lentidão. Agora, Conrad está tentando mudar essa situação. Recentemente publicou um estudo provocante no qual sugere que a música pode exercer efeito curativo e sedativo em parte por meio de um estímulo paradoxal a um hormônio de crescimento em geral associado mais ao estresse do que a curas.
Esse salto na presença do hormônio de crescimento, disse o Dr. John Morley, endocrinologista no Centro Médico da Universidade de St. Louis e que não participou do estudo, "não é o que seria de esperar, e não está claro exatamente o que signifique".
Mas, ele afirma que o fator suscita "algumas possibilidades novas e maravilhosas quanto à fisiologia da cura", e acrescenta que "além disso oferece também um metáfora interessante. Nós costumamos nos referir ao sistema neuro-endócrino como uma espécie de maestro da orquestra neurológica, comandando o trabalho do sistema imunológico. E nesse caso temos a música servindo de estímulo a esse condutor, a fim de dar início ao processo de cura".
Recentemente, Conrad decidiu se concentrar nos mecanismos específicos que podem ajudar a explicar os efeitos da música sobre o corpo. Em estudo publicado em dezembro pela revista Critical Care Medicine, ele e colegas revelaram um elemento inesperado na resposta fisiológica de pacientes em crise à música: um salto no hormônio pituitário de crescimento, cujos efeitos sobre a cura são entendidos como cruciais. "É uma espécie de aceleração", ele afirma, "que produz um efeito calmante".
O estudo foi bastante simples. Os pesquisadores equiparam 10 pacientes pós-cirúrgicos em tratamento em unidades de terapia intensiva com fones de ouvido, e na hora imediatamente posterior ao fim do efeito dos sedativos sobre o organismo, cinco deles ouviram versões delicadas, em piano solo, de composições de Mozart, enquanto outros cinco não ouviam música.
Os pacientes que ouviram música demonstraram diversas respostas já esperadas por Conrad com base em outros estudos: uma redução na pressão sangüínea e no ritmo cardíaco, menos necessidade de medicamentos contra a dor e uma queda de 20% na produção de dois importantes hormônios de estresse, a epinefrina e a interleuquina-6, ou IL-6. Em meio às respostas esperadas surgiu a nova constatação do estudo: um salto de 50% na produção do hormônio de crescimento pituitário.
Ninguém que tivesse conduzido esse tipo de estudo havia medido a produção de hormônios do crescimento, cujas tarefas incluem promover o crescimento, responder a ameaças contra o sistema imunológico e promover curas. Conrad incluiu essas avaliações porque as pesquisas nos últimos cinco anos demonstram que a produção de hormônios de crescimento em geral cresce em momentos de estresse e cai em momentos de relaxamento.
"Isso significa que seria de esperar uma queda no hormônio de crescimento nesse caso, como aconteceu com a epinefrina e a IL-6", disse Morley. "Mas, o hormônio de crescimento aumentou, no estudo em questão". Ele acrescentou que "a questão é determinar se o salto no hormônio de crescimento de fato promove o efeito sedativo ou é parte de alguma outra coisa que esteja em curso".
Conrad argumentou que o hormônio de crescimento tem efeito sedativo. Ele cita em seu estudo uma pesquisa de 2005 segundo a qual o fator de liberação do hormônio de crescimento, um mensageiro químico que essencialmente conclama o hormônio de crescimento a agir, reduzia a atividade da IL-6. Isso sugere, disse ele, que o hormônio de crescimento em si poderia reduzir os níveis de IL-6 e de epinefrina, que produzem inflamações as quais, de sua parte, causam dor e elevação da pressão sangüínea e do batimento cardíaco.
Nem todos os pesquisadores do estresse acolhem a hipótese positivamente. "As duas dinâmicas não são necessariamente a mesma", disse o Dr. Keith Welley, endocrinologista na Universidade do Illinois em Urbana-Champaign e especialista em respostas inflamatórias. "Eu pessoalmente não acredito no mecanismo celular que ele propõe como hipótese".
Para Conrad, a descoberta oferece uma espécie de elegância que combina ciência e música: o estudo parece apontar para um paralelo hormonal à capacidade da música para excitar e relaxar.
Conrad diz que espera expandir seu estudo dos efeitos da música sobre a produção de hormônio do crescimento a pacientes em tratamento intensivo. Ele também está preparando estudos mais ou menos semelhantes sobre o efeito da música no desempenho dos cirurgiões.



Escrito por Abel Duarte às 21h32
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