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:: UMA JANELA PARA A VIDA ::


O Futuro Envelheceu

Transcrevo  texto abaixo do Tony Belotto, que além de grande músico é também bamba na arte da reflexão.

A Cidade dos Velhos

Quando eu era criança, no começo dos anos 70, diziam que o Brasil era o país do futuro. Jovens alardeavam campanhas patrióticas em plena ditadura militar, jovens que serão os adultos no amanhã cheio de prosperidade. Até hoje espero aquele amanhã que nunca chegou. Olho pela janela do meu escritório, espreito a rua lá embaixo, onde andarão todos aqueles jovens esperançosos e iludidos do passado, meus companheiros, hoje homens e mulheres de meia-idade? Leio numa folha de jornal perdida na bagunça que nossa população começará a decrescer em 2039. A essa altura, além de uma população em pleno processo de encolhimento, já seremos um país de velhos. Para se ter uma idéia, a previsão é de que em 2050 as crianças correspondam a 13% da população, e os idosos, a 22%.

A tendência, irreversível, é a de que sejamos cada vez mais um país de velhos. O avanço da medicina, além de técnicas e políticas de controle de natalidade garantirão a supremacia dos idosos na população. Como idosos têm pouca ou nenhuma capacidade de reprodução, imagino um quadro sombrio de ficção científica: o Rio de Janeiro no futuro, já semi-encoberto pelas águas do aquecimento global, habitada por velhos preocupados com sua própria segurança e bem-estar, onde não mais se escutará o choro dos bebês, os risos das crianças e os gritos dos jovens.

Apenas a vida asséptica de velhos senhores e senhoras a passear comedidos pelas praças, a jogar vôlei nas praias, a caminhar sem medo pelas ruas desertas de juventude. A violência urbana já estará devidamente controlada. A maioria dos criminosos era composta de jovens, lembra? Restará o silêncio apenas, e a tranqüilidade de velhos pacíficos à espera da extinção. Paro de pensar no meu sombrio conto de ficção científica - A Cidade dos Velhos -, e volto a olhar pela janela, em busca dos jovens do meu passado, os velhos de amanhã. Não vejo ninguém. Apenas alguns garotos batendo bola na rua e uma babá passeando com um bebê que dorme tranqüilamente no carrinho. Ufa.



Escrito por Abel Duarte às 14h14
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